Os Desajustados 6º Capítulo Autor: Pedro Cardita

6º CAPÍTULO

Tapados pelos lençóis, estão deitados na cama virados um para o outro, a contemplarem-se.
Num gesto de pura ternura, Lucas passa a mão pelo rosto de Íris. Mantém-na sobre o lado direito da face e vai mexendo o polegar, acariciando-a.
- És intensa! Tens um ar frágil, mas ainda bem que as aparências iludem! - sorri de pura satisfação. - O teu charme subtil, fascina-me... - Lucas não pára de a elogiar.
- Davas um bom poeta... - Íris reage com ironia.
- A sério. Há algo invulgar em ti. Indecifrável. - ele continua a sua divagação.
- Este dia devia ter acontecido mais cedo. - reconhece Íris, com algum arrependimento.
- Eu só queria que este dia acontece-se. - confessa Lucas - Lembro-me perfeitamente da primeira impressão que tive de ti. - conta Lucas. Íris esboça um sorriso.
- O que é que achaste? - mexe-se, revelando curiosidade.
- Achei-te logo muito bonita. Uma verdadeira pérola! - Lucas enaltece novamente com boa disposição. Ela cora a sorrir.
- Não te faltam adjectivos!
- Mas pensei que tivesses o nariz arrebitado. - confessa Lucas.
- A sério? - Íris abre os olhos com espontaneidade.
- Sim. No entanto, quando começámos a falar, percebi que estava errado.
- Assim está melhor. - ela disfarça alguma altivez, rapidamente substituída por um sorriso carinhoso.
- Eu também percebi logo que eras uma pessoa decente.
- Nem ficaste surpreendida pelos meus devaneios? - diz ele com ar brincalhão.
- Até achei graça! - Íris sorri - Como achei que estavas a ser genuíno... - Nós, loucos, entendemo-nos muito bem. - Íris fala com graça.
- Parece que vivemos num mundo à parte, a divagar sobre as nossas vidas...
- Não é propriamente o local mais apetecível, mas...
- Acaba por ser um vale dos sonhos. - completa Lucas com piada. 
Íris sorri animada.
- Acho que as pessoas deviam de fazer como nós. Pararem um bocado e reflectirem. Arrumarem as ideias. Recarregarem as baterias! - sugere Lucas, não se cansando de gesticular.
- Já reparaste que os artistas, os desajustados vivem num mundo só deles. É estranho, mas ao mesmo tempo atraente. - observa Íris.
- Um artista tem de ter um quê de mistério, que nos aguce a curiosidade e mantenha a sua chama bem viva. - opina Lucas num tom de voz misterioso.
- Tu também me saíste um belo artista! - enaltece Íris em tom gozão. 
Riem animados.
- Já reparaste que muitos artistas só são devidamente reconhecidos depois da morte ou então morrem demasiado cedo e transformam-se em mitos. - alerta Íris.
- Na época actual são castrados por irem ao encontro das debilidades que reconhecem. Mais tarde servem como um espelho, por se manterem intemporais. - conclui Lucas - Mas agora prefiro pensar no quanto gostava que este momento pudesse ser eterno!
- Também eu... 
Olham deliciados um para o outro.
- A mim, também não me apetece muito ir trabalhar amanhã. - confessa Íris. - As folgas passam a voar.
- Quando queremos que demore mais tempo a passar, é quando passa mais rápido. - realça Lucas. 
- É assim...temos que acordar para a realidade! - Íris mostra-se resignada.
- E se não quiser? - teima Lucas.
- Sujeitaste a sofrer para sempre. - atesta Íris.
- Porquê que a vida é tão complicada? - lamenta Lucas.
- Talvez, porque nós a complicamos... - alerta ela.
- Tudo muda de um momento para o outro. Será que vale mesmo a pena projectar o futuro? - Lucas mostra-se preocupado.
- É a vida. É imprevisível. Mas se não fosse assim, tornava-se insonsa. - ela encara a realidade com optimismo.
Voltam a ficar um bocado em silêncio a contemplarem-se.
- Gostava de ser tão sonhadora como tu! - confessa Íris.
- Pelo menos, ninguém pode roubar os nossos sonhos! - realça Lucas.
- Mas podem impedi-los. - Íris finalmente revela alguma fragilidade.
- Só se deixarmos! - afirma Lucas - Já presenciei a recuperação de uma pessoa, que era considerada uma ilusão. Mas como acreditou que podia recuperar, conseguiu! Só quando concretizamos os nossos sonhos é que percebemos que vale mesmo a pena ir atrás do que queremos!
- Devíamos era alugar uma daquelas famosas carrinhas Volkswagen Kombi - com um sorriso de desejo, Íris estende os braços como se tivesse as mãos num volante - e fazíamos uma viagem pela Europa, à procura de novas experiências! - mexe a mãos como se estivesse a conduzir.
- “Só estou bem, aonde eu não estou. Porque eu só quero ir, aonde eu não vou!” - Lucas cantarola animado, mexendo a cabeça para a esquerda e para a direita.



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