Os Desajustados 3º Capítulo Autor: Pedro Cardita
3º CAPÍTULO
Vão dar a uma rua perpendicular, onde pessoas de diferentes etnias passeiam e artistas de rua, equilibristas, pintores que expõem os seus quadros, um tocador de harmónica e criadores de grandes bolas de sabão animam as ruas.
Respira-se cultura nas ruas!
- Afinal a cultura está bem viva! - realça Íris. - As ruas ganham outra vida, outra cor. - fala bastante entusiasmada.
- A cultura é a identidade de um povo! - reforça Lucas.
Lucas vai filmando, tentando não perder o fio à meada ao que se passa na rua.
Íris apressa o passo na direcção de uma bola de sabão gigante, faz que a abraça e de seguida deixa-a tomar livremente o seu caminho, flutuando no ar.
- Ainda bem que estás a filmar. Estes artistas merecem ser vistos! - elogia Íris.
Lucas fixa-se na exposição de quadros de um pintor. As telas estão expostas no chão, por cima de um pano azul escuro.
Lucas concentra-se num quadro com diversos livros a formarem uma longa escadaria, que se perde de vista.
- A escadaria do conhecimento! - apelida Lucas.
- Pois é.
- No dia em que houver um colapso informático, o conhecimento sobrevive nos livros. - teoriza Lucas.
- Bem pensado!
Íris chama a atenção para outro quadro que mostra um túnel com a saída em forma de fechadura gigante:
- Somos a chave da nossa vida! - intitula Íris.
- Não duvides.
- Aquele quadro também é muito fixe! - Lucas aponta para um quadro com uma cabeça metida dentro de um globo, com a face a despedaçar-se.
Comentam os quadros com tanto entusiasmo, que nem se lembram da presença do Pintor, que se delicia a observá-los.
- É forte! - reconhece Íris, fazendo uma careta impressionada.
- Mas um espelho! Afinal acabamos por nos despedaçar em cinzas!
- É verdade.
Íris aponta o dedo a mais um quadro com uma ninfa num lago inserido num ambiente idílico.
- Este quadro é místico!
- Um dia adorava fazer um filme de fantasia. - revela Lucas com ar sonhador.
- Isso seria muito bom! - enaltece Íris.
- Nunca se sabe... - Lucas fala com ar misterioso e ao mesmo tempo esperançoso.
- Gosto muito dos seus quadros. - Íris fala para o Pintor.
- Obrigado. - agradece o Pintor lisonjeado.
- Já pinta há muito tempo? - pergunta Lucas com curiosidade.
- Há 5 anos.
- Como se chama? - questiona Íris.
- Óscar.
- Prazer. Eu sou a Íris.
- Costuma expor em mais sítios? - informa-se Lucas.
- Maioritariamente tem sido nas ruas, mas já expus em cafés e nalgumas associações.
- Vou estar atento para quando ouvir falar do seu trabalho, poder ver. - Lucas mostra muito interesse.
- Obrigado. Vou continuar sempre a pintar, isso é garantido! - Óscar demonstra convicção no seu valor.
- Bem...temos que continuar o nosso caminho. - diz Lucas.
- Até qualquer dia. - despede-se Íris com gentileza.
- Até um dia destes. - despede-se Óscar.
Voltam a caminhar em direcção a um café.
- Sabes, sinto-me preenchido quando conheço novas formas de ver a vida. - desabafa Lucas.
- É uma lufada de ar fresco! - reforça Íris. - Se há algo que adorava fazer, era pintar! - confessa.
- Nunca experimentaste?
- Não. Talvez um dia...
- Quem sabe se não estarei ao lado de uma promissora pintora! - exclama Lucas com bom humor.
- Quem sabe… - Íris esboça um sorriso.
- Algum pintor com quem te identifiques em especial? - pergunta Lucas.
- Aprecio imenso a Frida Kahlo.
- Curioso...ela também se revelou uma artista após algum tempo. Há uma frase dela que nunca me hei-de esquecer: “I don’t paint dreams or nightmares...I paint my own reality!”. Ela também tinha uma maneira muito peculiar de encarar a vida. - realça Lucas.
- Eu chamo-lhe...personalidade! - destaca Íris.
Entretanto param diante uma Rapariga que manipula com uma incrível destreza, uma marioneta a tocar violino. Ficam a deliciar-se com este momento encantador.
À frente da marioneta está uma bolsa com moedas no chão.
Lucas filma a marioneta e a sua manipuladora durante alguns segundos. De seguida fecha o plano só na marioneta, levando mais uns segundos a filmar.
Sobe a câmara na direcção das mãos da manipuladora, para captar os seus hábeis movimentos. Enquanto Lucas continua a filmar, Íris tira a carteira do bolso e coloca algumas moedas na bolsa, agradecida pelo bom momento.
A Rapariga mexe levemente a cabeça em gesto de agradecimento.
Íris e Lucas continuam a andar pela rua.
- É uma pena não se dar mais apoio financeiro à cultura. - lamenta Íris. - Já viste o quanto o país podia ganhar?
- Pois. Infelizmente, somos apenas carne para canhão de uma sociedade devoradora... - Lucas fala num tom duro, não poupando nas críticas - e as artes são confundidas com um passatempo. Cada vez mais se confundem algumas profissões com passatempos. - lamenta Lucas - Quanto às artes, enquanto teimarem a alimentar a ideia de que somos estranhos, autênticos “freaks”, será muito complicado. Esquecem-se que as artes têm o poder de nos guiar, de nos fazerem sonhar. Mostram-nos caminhos diferentes, que não servem só para entreter.
- Isso é verdade. - reconhece Íris - Infelizmente, temos tendência para valorizar primeiro o que os outros fazem!
- É um mal global! - acusa Lucas.
- Devíamos dar sempre o benefício da dúvida. - propõe Íris.
- É mais fácil criticar! - realça Lucas.
- Pois...
- Mas o que seria do mundo sem os grandes artistas como Da Vinci, Picasso, Dali, entre outros? - questiona Lucas.
- Seria obsoleto. - conclui Íris.
- Ora aí está! Os artistas são os porta-estandartes dos sonhos dos comuns mortais! - explica o Rapaz.
- Gosto dessa frase! - elogia a Rapariga - Cada profissão tem o seu devido valor. - realça.
Um Mimo aproxima-se de Íris, pé ante pé, sem ela dar por isso. Sobrepõe-se ao ombro dela, fingindo estar a avistar algo ao longe.
Ao sentir a presença dele, Íris olha para trás.
Mimo apressa-se a colocar os braços à frente da cara, para a esconder.
Íris sorri bem disposta.
Lentamente, o Mimo baixa os braços, revelando uma expressão de quem não fez por mal e pede perdão.
- Olá! - exclama Íris com alegria.
Mimo abre os olhos em jeito de contentamento e sorri de orelha a orelha. Segura na mão da rapariga e revela ser um cavalheiro ao beijá-la.
- Obrigada. - agradece Íris a corar.
Mimo responde com uma vénia teatral. Vira-se para Lucas e junta os dedos indicadores, fazendo sinal de que ele e Íris sejam namorados.
- Não, não... - sorri Lucas com ar envergonhado.
Espantado, o Mimo abre a boca e faz um ar desgostoso.
Lucas e Íris olham um para o outro, corados e envergonhados.
De repente, o Mimo levanta o dedo indicador direito em sinal de estar a ter uma grande ideia, fazendo a rapariga sobressaltar, surpreendida pela sua espontaneidade.
Mimo começa a orientar Íris e Lucas, aproximando as mãos, em gesto de querê-los bem próximos um do outro.
Eles correspondem ao pedido. Mimo vira a palma da mão em sinal de stop.
Com as mãos finge ter uma máquina fotográfica e que lhes tira uma fotografia. Depois faz um sorriso de extrema felicidade.
Eles sorriem atrapalhados.
Animada, a rapariga diz:
- Agora sou eu que tive uma ideia!
Tira o telemóvel do bolso.
- Vem para ao pé de nós. - pede de forma afável.
Num andar cartunesco e vaidoso, o Mimo aproxima-se.
- Põe-te à esquerda dele. - diz ela a Lucas.
- Está bem. - ele responde com ar compenetrado. Coloca-se à esquerda do Mimo e ela à direita.
- Agora vamos tirar um retrato a sério. - diz Íris bem disposta.
O Mimo abana a cabeça em sinal compreensivo.
Íris aponta a câmara do telemóvel para os três e tira a fotografia.
Mimo sorri e com o polegar para cima, mostra o seu contentamento.
- Ficou gira, é verdade! - reforça ela animada.
- Pois está. - diz Lucas com ar atrapalhado.
Mimo olha para o pulso esquerdo como se tivesse um relógio.
Faz um ar espantado como se fosse muito tarde.
Bate com os dedos da mão direita nas costas da mão esquerda e aponta o polegar direito para trás das suas costas, a avisar que tem de ir embora.
- Ok. - anui Íris com ar compreensivo. - Foi bom este bocadinho. - sorri.
Mimo devolve um sorriso de orelha a orelha.
Aproxima-se dela e encena dois beijos de despedida, sem lhe tocar na face.
Íris sorri divertida.
Num gesto rápido, o Mimo estende a mão a Lucas.
Rapaz corresponde, apertando a mão ao Mimo.
Mimo abana a mão com veemência, num gesto cómico.
Lucas solta um sorriso sincero.
Mimo afasta-se, andando na direcção oposta à do casal de amigos.
- Foi encantador este Mimo. Belo momento! - exulta Íris.
- Foi giro, sem dúvida.- reforça Lucas.
- Sabes, também gostava de filmar um bocado. - diz Íris na esperança que ele lhe dê ouvidos e empreste a câmara.
Lucas olha para ela, erguendo a sobrancelha com ar duvidoso.
- Porque estás a olhar assim para mim? - Íris faz um ar inocente, capaz de convencer qualquer pessoa.
Lucas sorri.
- Estava a brincar contigo…eu deixo-te filmar.
- Isso é tão fixe da tua parte! - exclama Íris com alegria.
Lucas passa-lhe a câmara para a mão e dá-lhe algumas indicações de como a operar.
Íris assimila tudo com muito atenção, anuindo com a cabeça em sinal de compreensão. Começa a filmar as pessoas de diferentes estilos, sem que se apercebam.
Filma as fachadas dos prédios e os candeeiros. Depois foca-se num Homem-Estátua, disfarçado de anjo, que veste um manto branco, com umas asas brancas nas suas costas e a face toda pintada de branco.
- Gabo a coragem e o esforço destes artistas! - elogia Íris com pompa e circunstância. - Repara como não se mexe nem um milímetro. - analisa com atenção a prestação do artista.
Fecha o plano no rosto imóvel do Homem-Estátua e filma a imobilidade do corpo dele, de baixo para cima.
- Uma vez li um conto sobre um Homem-Estátua que nunca mais esqueci... - o Homem-Estátua aviva a memória de Lucas.
- Então porquê? - pergunta Íris cheia de curiosidade.
- Falava sobre a vida de um Homem-Estátua, colocando-nos na sua perspectiva e ficou-me na memória a parte em que conta a sua ida a uma discoteca depois de um dia de trabalho, acho engraçado. - conta Lucas.
- Todos temos direito a divertir-nos! - realça Íris.
- Claro. - concorda Lucas.
Prosseguem caminho, com Íris a filmar os padrões da calçada portuguesa.
Entretida, gira o corpo, fazendo um plano a 360 graus.
Entretanto Íris repara num Acordeonista a mostrar a sua arte musical. Dedilha com uma fluidez estonteante e mexe a cabeça, deixando-se levar pela música.
Um cão de raça pequena segura com a boca, a pega de um pequeno cesto com algumas moedas. Íris mexe o pé direito, acompanhando o ritmo da música, ao mesmo tempo que filma.
Usa outra vez o zoom, para filmar mais de perto o dedilhar do músico.
Ficam durante um bocado a ouvir a música do acordeão.
Lucas põe uma moeda no cesto.
- Sabes, a música faz-me sentir livre! - comenta Íris - Parece que me dá asas para voar.
- Eu passo muitas tardes a ouvir música. - revela Lucas - Também mexe muito comigo, faz-me companhia e inspira-me.
- Gosto deste estilo de música alegre, tradicional! - revela a rapariga.
- Prefiro outros estilos. - diz Lucas.
- Quais?
- Gosto de muita coisa, desde o Rock até ao Jazz. À noite, costumo ir a alguns bares, ver bandas de vários estilos. Noto que há gosto pela experimentação e faz-se muito boa música. - explica Lucas.
- Acredito! Há que apoiar as bandas originais! - realça Íris.
- Um dia destes temos de combinar sair à noite e vamos descobrir algumas bandas novas. - sugere Lucas.
- Sim. Parece-me bem. - concorda Íris - Eu também sou muito eclética musicalmente.
- O que ouves? - pergunta ele curioso.
- Nancy Sinatra...
- “Bang, Bang!” - interrompe ele a sorrir.
- “My Baby shot me down! Bang Bang! - completa Íris entusiasmada, fingindo que a mão é uma pistola e disparando na direcção de Lucas. - Adoro a canção! - confessa com um largo sorriso.
- É uma grande música, sem dúvida. - Lucas carrega na palavra “grande”.
- Também gosto da Nina Simone, Janis Joplin, Joan Jett, The Runaways, Ella Fitzgerald, Skylar Grey, Tina Turner, Alicia Keys, Joss Stone, Melody Gardot... - enumera Íris com alegria.
- Tens bom gosto. - diz-lhe Lucas.
- Obrigada. Aprendi com a minha Mãe. Ela ouvia com frequência a Nancy Sinatra, Nina Simone e eu herdei alguns dos seus gostos.
Íris devolve-lhe a câmara.
- Aí a tens. Espero que o meu material seja útil.
- Há-de ser. - diz Lucas ao mesmo tempo que segura na câmara - Depois quero ver a tua visão. Íris faz um sorriso traquinas.
- Tenho tido boas experiências ao trabalhar com mulheres, portanto...
- Isso é bom.
- Gosto da sensibilidade que transmitem. - explica Lucas.
- Sim. Nós somos mais sensíveis que vocês. - gaba-se Íris.
Continuam palmilhando caminho ao encontro de uma esplanada.
Em jeito teatral, um senhor já com alguma idade, brande os braços para o alto e declama em voz alta, aguerrida:
Respira-se cultura nas ruas!
- Afinal a cultura está bem viva! - realça Íris. - As ruas ganham outra vida, outra cor. - fala bastante entusiasmada.
- A cultura é a identidade de um povo! - reforça Lucas.
Lucas vai filmando, tentando não perder o fio à meada ao que se passa na rua.
Íris apressa o passo na direcção de uma bola de sabão gigante, faz que a abraça e de seguida deixa-a tomar livremente o seu caminho, flutuando no ar.
- Ainda bem que estás a filmar. Estes artistas merecem ser vistos! - elogia Íris.
Lucas fixa-se na exposição de quadros de um pintor. As telas estão expostas no chão, por cima de um pano azul escuro.
Lucas concentra-se num quadro com diversos livros a formarem uma longa escadaria, que se perde de vista.
- A escadaria do conhecimento! - apelida Lucas.
- Pois é.
- No dia em que houver um colapso informático, o conhecimento sobrevive nos livros. - teoriza Lucas.
- Bem pensado!
Íris chama a atenção para outro quadro que mostra um túnel com a saída em forma de fechadura gigante:
- Somos a chave da nossa vida! - intitula Íris.
- Não duvides.
- Aquele quadro também é muito fixe! - Lucas aponta para um quadro com uma cabeça metida dentro de um globo, com a face a despedaçar-se.
Comentam os quadros com tanto entusiasmo, que nem se lembram da presença do Pintor, que se delicia a observá-los.
- É forte! - reconhece Íris, fazendo uma careta impressionada.
- Mas um espelho! Afinal acabamos por nos despedaçar em cinzas!
- É verdade.
Íris aponta o dedo a mais um quadro com uma ninfa num lago inserido num ambiente idílico.
- Este quadro é místico!
- Um dia adorava fazer um filme de fantasia. - revela Lucas com ar sonhador.
- Isso seria muito bom! - enaltece Íris.
- Nunca se sabe... - Lucas fala com ar misterioso e ao mesmo tempo esperançoso.
- Gosto muito dos seus quadros. - Íris fala para o Pintor.
- Obrigado. - agradece o Pintor lisonjeado.
- Já pinta há muito tempo? - pergunta Lucas com curiosidade.
- Há 5 anos.
- Como se chama? - questiona Íris.
- Óscar.
- Prazer. Eu sou a Íris.
- Costuma expor em mais sítios? - informa-se Lucas.
- Maioritariamente tem sido nas ruas, mas já expus em cafés e nalgumas associações.
- Vou estar atento para quando ouvir falar do seu trabalho, poder ver. - Lucas mostra muito interesse.
- Obrigado. Vou continuar sempre a pintar, isso é garantido! - Óscar demonstra convicção no seu valor.
- Bem...temos que continuar o nosso caminho. - diz Lucas.
- Até qualquer dia. - despede-se Íris com gentileza.
- Até um dia destes. - despede-se Óscar.
Voltam a caminhar em direcção a um café.
- Sabes, sinto-me preenchido quando conheço novas formas de ver a vida. - desabafa Lucas.
- É uma lufada de ar fresco! - reforça Íris. - Se há algo que adorava fazer, era pintar! - confessa.
- Nunca experimentaste?
- Não. Talvez um dia...
- Quem sabe se não estarei ao lado de uma promissora pintora! - exclama Lucas com bom humor.
- Quem sabe… - Íris esboça um sorriso.
- Algum pintor com quem te identifiques em especial? - pergunta Lucas.
- Aprecio imenso a Frida Kahlo.
- Curioso...ela também se revelou uma artista após algum tempo. Há uma frase dela que nunca me hei-de esquecer: “I don’t paint dreams or nightmares...I paint my own reality!”. Ela também tinha uma maneira muito peculiar de encarar a vida. - realça Lucas.
- Eu chamo-lhe...personalidade! - destaca Íris.
Entretanto param diante uma Rapariga que manipula com uma incrível destreza, uma marioneta a tocar violino. Ficam a deliciar-se com este momento encantador.
À frente da marioneta está uma bolsa com moedas no chão.
Lucas filma a marioneta e a sua manipuladora durante alguns segundos. De seguida fecha o plano só na marioneta, levando mais uns segundos a filmar.
Sobe a câmara na direcção das mãos da manipuladora, para captar os seus hábeis movimentos. Enquanto Lucas continua a filmar, Íris tira a carteira do bolso e coloca algumas moedas na bolsa, agradecida pelo bom momento.
A Rapariga mexe levemente a cabeça em gesto de agradecimento.
Íris e Lucas continuam a andar pela rua.
- É uma pena não se dar mais apoio financeiro à cultura. - lamenta Íris. - Já viste o quanto o país podia ganhar?
- Pois. Infelizmente, somos apenas carne para canhão de uma sociedade devoradora... - Lucas fala num tom duro, não poupando nas críticas - e as artes são confundidas com um passatempo. Cada vez mais se confundem algumas profissões com passatempos. - lamenta Lucas - Quanto às artes, enquanto teimarem a alimentar a ideia de que somos estranhos, autênticos “freaks”, será muito complicado. Esquecem-se que as artes têm o poder de nos guiar, de nos fazerem sonhar. Mostram-nos caminhos diferentes, que não servem só para entreter.
- Isso é verdade. - reconhece Íris - Infelizmente, temos tendência para valorizar primeiro o que os outros fazem!
- É um mal global! - acusa Lucas.
- Devíamos dar sempre o benefício da dúvida. - propõe Íris.
- É mais fácil criticar! - realça Lucas.
- Pois...
- Mas o que seria do mundo sem os grandes artistas como Da Vinci, Picasso, Dali, entre outros? - questiona Lucas.
- Seria obsoleto. - conclui Íris.
- Ora aí está! Os artistas são os porta-estandartes dos sonhos dos comuns mortais! - explica o Rapaz.
- Gosto dessa frase! - elogia a Rapariga - Cada profissão tem o seu devido valor. - realça.
Um Mimo aproxima-se de Íris, pé ante pé, sem ela dar por isso. Sobrepõe-se ao ombro dela, fingindo estar a avistar algo ao longe.
Ao sentir a presença dele, Íris olha para trás.
Mimo apressa-se a colocar os braços à frente da cara, para a esconder.
Íris sorri bem disposta.
Lentamente, o Mimo baixa os braços, revelando uma expressão de quem não fez por mal e pede perdão.
- Olá! - exclama Íris com alegria.
Mimo abre os olhos em jeito de contentamento e sorri de orelha a orelha. Segura na mão da rapariga e revela ser um cavalheiro ao beijá-la.
- Obrigada. - agradece Íris a corar.
Mimo responde com uma vénia teatral. Vira-se para Lucas e junta os dedos indicadores, fazendo sinal de que ele e Íris sejam namorados.
- Não, não... - sorri Lucas com ar envergonhado.
Espantado, o Mimo abre a boca e faz um ar desgostoso.
Lucas e Íris olham um para o outro, corados e envergonhados.
De repente, o Mimo levanta o dedo indicador direito em sinal de estar a ter uma grande ideia, fazendo a rapariga sobressaltar, surpreendida pela sua espontaneidade.
Mimo começa a orientar Íris e Lucas, aproximando as mãos, em gesto de querê-los bem próximos um do outro.
Eles correspondem ao pedido. Mimo vira a palma da mão em sinal de stop.
Com as mãos finge ter uma máquina fotográfica e que lhes tira uma fotografia. Depois faz um sorriso de extrema felicidade.
Eles sorriem atrapalhados.
Animada, a rapariga diz:
- Agora sou eu que tive uma ideia!
Tira o telemóvel do bolso.
- Vem para ao pé de nós. - pede de forma afável.
Num andar cartunesco e vaidoso, o Mimo aproxima-se.
- Põe-te à esquerda dele. - diz ela a Lucas.
- Está bem. - ele responde com ar compenetrado. Coloca-se à esquerda do Mimo e ela à direita.
- Agora vamos tirar um retrato a sério. - diz Íris bem disposta.
O Mimo abana a cabeça em sinal compreensivo.
Íris aponta a câmara do telemóvel para os três e tira a fotografia.
Mimo sorri e com o polegar para cima, mostra o seu contentamento.
- Ficou gira, é verdade! - reforça ela animada.
- Pois está. - diz Lucas com ar atrapalhado.
Mimo olha para o pulso esquerdo como se tivesse um relógio.
Faz um ar espantado como se fosse muito tarde.
Bate com os dedos da mão direita nas costas da mão esquerda e aponta o polegar direito para trás das suas costas, a avisar que tem de ir embora.
- Ok. - anui Íris com ar compreensivo. - Foi bom este bocadinho. - sorri.
Mimo devolve um sorriso de orelha a orelha.
Aproxima-se dela e encena dois beijos de despedida, sem lhe tocar na face.
Íris sorri divertida.
Num gesto rápido, o Mimo estende a mão a Lucas.
Rapaz corresponde, apertando a mão ao Mimo.
Mimo abana a mão com veemência, num gesto cómico.
Lucas solta um sorriso sincero.
Mimo afasta-se, andando na direcção oposta à do casal de amigos.
- Foi encantador este Mimo. Belo momento! - exulta Íris.
- Foi giro, sem dúvida.- reforça Lucas.
- Sabes, também gostava de filmar um bocado. - diz Íris na esperança que ele lhe dê ouvidos e empreste a câmara.
Lucas olha para ela, erguendo a sobrancelha com ar duvidoso.
- Porque estás a olhar assim para mim? - Íris faz um ar inocente, capaz de convencer qualquer pessoa.
Lucas sorri.
- Estava a brincar contigo…eu deixo-te filmar.
- Isso é tão fixe da tua parte! - exclama Íris com alegria.
Lucas passa-lhe a câmara para a mão e dá-lhe algumas indicações de como a operar.
Íris assimila tudo com muito atenção, anuindo com a cabeça em sinal de compreensão. Começa a filmar as pessoas de diferentes estilos, sem que se apercebam.
Filma as fachadas dos prédios e os candeeiros. Depois foca-se num Homem-Estátua, disfarçado de anjo, que veste um manto branco, com umas asas brancas nas suas costas e a face toda pintada de branco.
- Gabo a coragem e o esforço destes artistas! - elogia Íris com pompa e circunstância. - Repara como não se mexe nem um milímetro. - analisa com atenção a prestação do artista.
Fecha o plano no rosto imóvel do Homem-Estátua e filma a imobilidade do corpo dele, de baixo para cima.
- Uma vez li um conto sobre um Homem-Estátua que nunca mais esqueci... - o Homem-Estátua aviva a memória de Lucas.
- Então porquê? - pergunta Íris cheia de curiosidade.
- Falava sobre a vida de um Homem-Estátua, colocando-nos na sua perspectiva e ficou-me na memória a parte em que conta a sua ida a uma discoteca depois de um dia de trabalho, acho engraçado. - conta Lucas.
- Todos temos direito a divertir-nos! - realça Íris.
- Claro. - concorda Lucas.
Prosseguem caminho, com Íris a filmar os padrões da calçada portuguesa.
Entretida, gira o corpo, fazendo um plano a 360 graus.
Entretanto Íris repara num Acordeonista a mostrar a sua arte musical. Dedilha com uma fluidez estonteante e mexe a cabeça, deixando-se levar pela música.
Um cão de raça pequena segura com a boca, a pega de um pequeno cesto com algumas moedas. Íris mexe o pé direito, acompanhando o ritmo da música, ao mesmo tempo que filma.
Usa outra vez o zoom, para filmar mais de perto o dedilhar do músico.
Ficam durante um bocado a ouvir a música do acordeão.
Lucas põe uma moeda no cesto.
- Sabes, a música faz-me sentir livre! - comenta Íris - Parece que me dá asas para voar.
- Eu passo muitas tardes a ouvir música. - revela Lucas - Também mexe muito comigo, faz-me companhia e inspira-me.
- Gosto deste estilo de música alegre, tradicional! - revela a rapariga.
- Prefiro outros estilos. - diz Lucas.
- Quais?
- Gosto de muita coisa, desde o Rock até ao Jazz. À noite, costumo ir a alguns bares, ver bandas de vários estilos. Noto que há gosto pela experimentação e faz-se muito boa música. - explica Lucas.
- Acredito! Há que apoiar as bandas originais! - realça Íris.
- Um dia destes temos de combinar sair à noite e vamos descobrir algumas bandas novas. - sugere Lucas.
- Sim. Parece-me bem. - concorda Íris - Eu também sou muito eclética musicalmente.
- O que ouves? - pergunta ele curioso.
- Nancy Sinatra...
- “Bang, Bang!” - interrompe ele a sorrir.
- “My Baby shot me down! Bang Bang! - completa Íris entusiasmada, fingindo que a mão é uma pistola e disparando na direcção de Lucas. - Adoro a canção! - confessa com um largo sorriso.
- É uma grande música, sem dúvida. - Lucas carrega na palavra “grande”.
- Também gosto da Nina Simone, Janis Joplin, Joan Jett, The Runaways, Ella Fitzgerald, Skylar Grey, Tina Turner, Alicia Keys, Joss Stone, Melody Gardot... - enumera Íris com alegria.
- Tens bom gosto. - diz-lhe Lucas.
- Obrigada. Aprendi com a minha Mãe. Ela ouvia com frequência a Nancy Sinatra, Nina Simone e eu herdei alguns dos seus gostos.
Íris devolve-lhe a câmara.
- Aí a tens. Espero que o meu material seja útil.
- Há-de ser. - diz Lucas ao mesmo tempo que segura na câmara - Depois quero ver a tua visão. Íris faz um sorriso traquinas.
- Tenho tido boas experiências ao trabalhar com mulheres, portanto...
- Isso é bom.
- Gosto da sensibilidade que transmitem. - explica Lucas.
- Sim. Nós somos mais sensíveis que vocês. - gaba-se Íris.
Continuam palmilhando caminho ao encontro de uma esplanada.
Em jeito teatral, um senhor já com alguma idade, brande os braços para o alto e declama em voz alta, aguerrida:
- Eras só uma recordação,
Mas queria que fosses uma realidade. Quanto mais te procurava,
Menos te encontrava!
Fiquei privado da felicidade,
Porém não vou desistir!
Pois aprendi a lutar,
Para conquistar!
Mas queria que fosses uma realidade. Quanto mais te procurava,
Menos te encontrava!
Fiquei privado da felicidade,
Porém não vou desistir!
Pois aprendi a lutar,
Para conquistar!
Íris exibe um sorriso de orelha a orelha e aplaude entusiasticamente o Declamador. Ele abraça-se a si próprio em gesto de profundo agradecimento.
- Muito bom! - elogia Íris - Hoje vou para casa de barriga cheia!

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