Os Desajustados 4º Capítulo Autor: Pedro Cardita
4º CAPÍTULO
Aproximam-se da esplanada de um café, coberta por chapéus de sol e bem composta pela presença de algumas pessoas. Vêem uma mesa livre e aproveitam para ocupar as cadeiras vagas.
Lucas pousa a mala no chão, junto aos seus pés.
- Creio que vêem servir às mesas. - pensa Lucas.
- Sim...acho que sim.
Lucas levanta o braço, fazendo sinal ao Empregado, que se aproxima ao perceber que o está a chamar.
- Boa tarde. - cumprimenta Lucas.
- Boa tarde. O que vão beber? - o Empregado mostra ser simpático.
- É uma garrafa de água, por favor. - pede Íris.
- Para mim pode ser uma limonada fresca. - Lucas completa os pedidos.
- Com certeza. Trago já. - Empregado anui com a cabeça em gesto afirmativo e afasta-se em direcção ao interior do café.
- ‘Tou curioso para ver as tuas reacções durante o corte? - Lucas fala animado, enquanto rebobina o vídeo.
- Porquê?
- Fizeste expressões bastante engraçadas. - olha sorridente para Íris, enquanto o vídeo anda para trás.
- Acredito. - sorri envergonhada.
- Aqui tens. Podes ver. - passa-lhe a máquina.
Ligeiramente a tremer, Íris segura na máquina, não conseguindo disfarçar a ansiedade. Carrega no “play” e começa a ver o vídeo.
Lucas olha embevecido para ela, que sorri surpreendida com o que vê.
- O que foi? - ele mostra-se curioso.
Aproxima a cadeira da dela, para também ver o vídeo.
Vê Íris a fazer várias expressões enquanto a Cabeleireira lhe corta o cabelo.
- É estranho...ver-me... - Íris está pensativa.
- É normal... - diz Lucas, olhando para Íris.
Ela continua a ver atentamente as suas próprias reacções.
- É engraçado ver o teu nervosismo miudinho. - explica ele com ar sorridente e bem disposto - Repara nos gestos subtis que fazes sem dares por isso.
- Sim. - Íris fala mecanicamente - Filmaste-me os pés...- acha piada ao que vê.
- Sim. Para realçar o facto de falarmos com o corpo todo.
- Interessante... - continua concentrada no seu vídeo. - Filmas muito em grande plano. - salta-lhe à vista.
- Gosto de reforçar o que as pessoas sentem. - explica Lucas.
- Tens muita sensibilidade. - ela elogia-o.
- Estou muito longe do que quero fazer. - admite o rapaz.
- Mas estás no bom caminho. - Íris incentiva-o e continua entretida a ver a filmagem, enquanto o Empregado traz as bebidas à mesa.
- Aqui estão as bebidas. - coloca-as em cima da mesa.
- Obrigado. - agradece Lucas.
Íris ainda está focada no vídeo.
Lucas tira a carteira do bolso direito das calças e retira uma nota lá de dentro. - É para pagar ambas as bebidas. - diz ao Empregado.
De repente, Íris desvia a atenção do vídeo e olha para Lucas.
- Espera... - pousa a câmara na mesa, parando de ver o vídeo.
- Eu pago. - afirma Lucas.
- Não...
Empregado olha atrapalhado para os dois, sem saber muito bem o que deve fazer.
- Eu pago. - Lucas olha com ar firme, para o Empregado, para que aceite a nota.
- O cavalheiro manda! - o Empregado olha para Íris, com ar brincalhão.
- Não está certo! - Íris sorri envergonhada.
- Está sim. - responde Lucas com firmeza.
Íris sorri com ar atrapalhado e aflora delicadamente o rosto.
- Vais deixar a imagem a cores? - pergunta Íris.
- Sinceramente ainda não sei.
- Ficava gira a preto e branco, dá um ar mais clássico. - sugere a rapariga.
- Exacto. - reconhece Lucas.
Lucas semicerra o olhar nela, que abre a garrafa de água e dá um gole.
- Estás tão marcante quanto a Jean Seberg ou a Emma Watson. - observa Lucas.
Sorridente, Íris abana a cabeça, achando-lhe piada.
- Tu e as Divas do Cinema.
- A Audrey Hepburn também é uma boa representante do cabelo curto, no filme “Férias em Roma”. - lembra-se Lucas.
- Adorei esse filme! - Íris fala com entusiasmo. - É pena não termos uma lambreta para também andarmos por aí. - recorda com um sorriso imaginativo, uma das cenas mais marcantes do filme.
- Era giro... - Lucas também sorri.
- É uma cena inesquecível. - reforça Íris.
- Sim, é muito fixe. - reconhece Lucas.
- A Audrey Hepburn já de si era muito carismática, mas nesse filme ainda tem maior impacto! - Íris fala com saudosismo.
- É a princesa rebelde contra as regras! - reforça Lucas.
- Até me identifico com ela. - Íris admite a influência.
- Nem se percebe porquê! - diz Lucas com boa disposição.
Riem ao mesmo tempo.
Lucas bebe um pouco da limonada.
- Se reparares, os anos passaram, mas muita coisa continua igual. - destaca Íris, com uma certa ironia.
- É verdade. Continua a ser estranho ver uma mulher de cabelo curto!
- Recentemente, até houveram várias actrizes a aderirem a este corte. - revela Íris.
- Mas são raras as que se mantêm assim. Não devia ser só uma moda. - lamenta Lucas.
- Faz tudo parte de um ciclo e a moda também é cíclica. - opina Íris.
- Já não se fazem verdadeiros ícones como antigamente. - Lucas fala com saudosismo.
- Também gosto muito do espírito independente da Jean Seberg. - confessa Íris.
- Ainda por cima foi numa altura de ebulição cultural. - lembra Lucas - Algo que bem precisamos nos dias de hoje. Fazem falta novas ideias!
- Concordo contigo.
Íris beberica a água.
- Mas não acredito que aconteça uma nova revolução cultural. - Lucas desabafa num tom pessimista.
- Nunca se sabe. Podias fazer um filme sobre isso. - sugere Íris.
- Sobre um mundo conservador, que vive de olhos fechados?- Lucas fala com alguma agressividade.
- Porque não? - ela deixa o desafio.
Lucas segura no copo e bebe mais um pouco da limonada.
- É uma ideia a ponderar. - diz Lucas, com ar contemplativo e pousa o copo na mesa.
- Acho que sim. Podes não mudar o mundo, mas podes dar um ponto de vista diferente!- sugere Íris.
- É o que tento fazer. Daí a filmagem do teu corte contribuir para um documentário sobre a importância da imagem na sociedade.
- Por falar nisso...está ali uma rapariga, atrás de ti, que só faz olhar para mim, ao mesmo tempo que fala com o Namorado. Até lhe consigo ler o pensamento. - diz Íris com um sorriso divertido.
- É a tua imagem a provocar influência. - Lucas responde animado e com ar sorridente.
O Namorado da Rapariga observadora, cruza os braços e faz ar reprovador perante o que ela lhe diz. Ela responde com uma careta, espelho de uma sentida desilusão.
- Acredito que ela lhe esteja a dizer que também gostava de fazer o mesmo que eu, mas ele não está nada entusiasmado. - prevê Íris.
- Lá está o que disse! Há muita gente com palas nos olhos, só vêem em frente! - Lucas põe as mãos ao lado dos olhos, fingindo serem as palas.
- Ela não deve ter a coragem suficiente. Não é maluca como eu! - Íris brinca com a situação.
- Achas que és maluca por teres feito algo que querias? - Lucas volta a falar com alguma agressividade.
- Não...
- Se lutarmos pelo que queremos, estamos mais perto de alcançar os nossos sonhos! - interrompe Lucas.
- Tens razão.
Íris coloca o cotovelo em cima da mesa e pousa o queixo sobre a mão direita, observando o Rapaz.
- Sabes...acho que és um desajustado! - classifica-o Íris.
- Sim. Mas acredito que não sou um caso único.
- Deixa lá, eu também sou. - conforta-o.
- Numa sociedade cheia de valores deturpados, os verdadeiros loucos andam à solta e os desajustados estão presos em asilos. - Lucas mostra-se inspirado.
- Bem...inspiradora essa frase! Intensa. - elogia Íris, impressionada com ele.
Duas amigas passam próximas da mesa.
Uma aponta o dedo indicador, percebendo-se claramente que está a dizer à outra, qualquer coisa sobre o cabelo curto de Íris.
- Não param de olhar para ti! - repara Lucas.
Divertida, Íris reage com naturalidade:
- É sempre assim! Da primeira vez que o cortei, também aconteceu o mesmo.
- Não precisas de um longo e esbelto cabelo para seres uma pessoa interessante. E o cabelo cresce! - desvaloriza Lucas.
- Ora nem mais! - Íris reage entusiasticamente. - Eu gosto de ser versátil! E, pensando bem, não se pode agradar a todos. Se fizesse para ficar bem vista, deixava de ser eu própria. - opina Íris com ar decidido.
- Admiro a tua firmeza! Dá-te personalidade! - Lucas fecha a mão direita, reforçando a garra que vê em Íris. - Não devemos de ter medo de dizermos o que pensamos, o que sentimos. - fala sem receios.
Íris ri e bebe mais um pouco de água.
- Além disso, repara que o cabelo muda tal como a nossa vida também muda. - metaforiza Íris.
- Irrita-me, avaliarem-nos pela aparência. - desabafa Lucas em tom claramente chateado. - Enfim...
Dá mais um gole na limonada. Debruça-se sobre a mesa e fala:
- Gostava de fazer uma experiência contigo. - muda de assunto.
- O quê? - intriga-se Íris.
- Fazer algo do género que o Warhol fez com a Edie Sedgwick nos screen tests.
Íris espevita o rosto na direcção dele.
- Agora estás a querer ser como o Warhol? - semicerra os olhos.
- Não. Quero é aproveitar a fonte de inspiração para lapidar o meu estilo pessoal.
- Sabes, acho que os realizadores estão sempre a repetir-se. - opina a rapariga.
- Eu creio que estejam incessantemente à procura da perfeição! - realça Lucas.
- A perfeição não é alcançável. E já pensaste no vazio que ficava se tal fosse atingível? Alexandre, o Grande chorou quando viu que não havia mais nada para conquistar! - alerta Íris.
- Sim, eu sei. - Lucas esboça um sorriso - Como é que hei-de explicar... - Lucas faz uma pequena pausa para assentar as ideias - Há sempre algo que achamos poder melhorar...
- Isso acontece com todos nós. - lembra Íris.
- Sim, mas há muita coisa que queremos transmitir e não é fácil passarmos as nossas ideias de uma forma consistente. Aliás, é bastante complicado organizarmos as nossas próprias ideias. Por isso é que andamos, desnecessariamente, às voltas, quando sabemos o que queremos. Mesmo assim, parece que fica sempre algo por dizer. - Lucas tenta ser sucinto a explicar-se.
- Gostamos de complicar o que é simples - realça Íris com pragmatismo - Embora tenha consciência que não é fácil desenvolver uma ideia.
- Nada mesmo. O pior é quando sabes o que queres fazer, mas não consegues desenvolver. Torna- se asfixiante! E à medida que o bloqueio permanece, é cada vez pior. - explica Lucas.
- Há dias mais produtivos, outros nem tanto. - sugere Íris com naturalidade.
- O ideal seria todos os dias serem bastante produtivos. - responde Lucas com um sorriso irónico.
- Nunca estamos satisfeitos com o que temos! - atesta a rapariga.
- Lá isso é verdade!
Lucas segura mais uma vez no copo e mata a sede.
- Mas como te estava a querer explicar... - recupera a conversa sobre o vídeo inspirado no screen test da Edie Sedgwick - a minha ideia é a seguinte: gostava de filmar a tua cara em diversos planos e em vários ângulos. Imagina... - com a mãos faz o gesto como se a estivesse a enquadrar - faço um grande plano do teu rosto, depois um plano de perfil, a seguir um grande plano só da boca, depois dos olhos e na edição faço uma montagem dinâmica que destaque a tua expressividade e que conserve o teu carisma. Ficas com um vídeo que vai imortalizar uma parte distinta da tua vida.
- Parece-me interessante! - Íris bebe mais um pouco de água.
- Assim que fosse possível, gostava de fazer esta experiência. - Lucas revela a sua vontade.
- Hmm... - Íris finge estar pensativa - Porque não a vamos fazer? - sugere Íris.

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