Um Copo de Vinho Autor: Pedro Cardita
Cansada do trabalho, senta-se no sofá com ar triste.
Suspira.
Esfrega os olhos com as mãos.
Está desiludida com a vida, farta das suas complicações: as contas por pagar, os desgostos de amor, os sonhos esmorecidos.
Os vinte já lá vão, os trinta também.
Já começa a ficar farta de ir à luta e não haverem melhorias.
Aliás, sente-se a regredir!
Respira fundo e levanta-se do sofá, indo em direção à cozinha.
Abre uma garrafa de vinho tinto e despeja-o para um copo.
Dá um longo gole.
Saboreia o vinho, esfregando os lábios um no outro.
Deambula até à sala, com o copo de vinho numa mão e a garrafa na outra.
Volta a sentar-se no sofá e a beber o vinho.
Está com o olhar perdido.
Despeja mais um pouco de vinho para o copo e bebe-o.
Fecha os olhos.
Apesar de tentar conter-se não consegue impedir que uma lágrima escorra pelo seu rosto.
Passa a mão direita pelo olho direito e seca-o.
Torna a recorrer ao vinho.
Agita o copo, olhando atentamente para o vinho a girar.
Sente-se no mesmo estado, à roda, aos círculos.
Continua a beber o vinho até a garrafa ficar vazia.
Olha com ar observador para o copo vazio que tem na sua mão direita.
Desgostosa, abana a cabeça para a esquerda e para a direita em sinal de negação.
Deixa cair o copo que se parte e a faz sobressaltar.
Olha surpreendida para os vidros espalhados pelo chão.
Com uma vassoura, varre os vidros para uma pá e olha pensativa para os cacos uns ao lado dos outros.
Os meses passam e o ritual de beber um copo de vinho mantém-se.
Mas desta vez, brinda com uma pessoa que lhe pergunta:
- A que se deve este brinde?
Ela responde com um sorriso alegre:
- À superação!

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