Golo! Autor: Pedro Cardita
O jogo está renhido.
Não lhe tem corrido muito bem.
Falha muitos passes, não está com o instinto matador habitual, já fez algumas faltas, uma ou outra mais dura, que lhe valeu um cartão amarelo e uma última reprimenda, por parte do árbitro.
Não consegue manter-se cem por cento concentrado.
Num pontapé de canto, a bola é batida para o centro da área, onde é cortada por um defesa da equipa adversária, para a entrada da área.
Sem deixar cair a bola no chão, ele remata de primeira com força.
- GOLO! - grita o público efusivamente.
Eufórico, corre em direcção à bandeirola de canto.
Festeja, dando um grande salto, ao mesmo tempo que ergue o punho direito fechado no ar.
A seguir, levanta a bandeirola de canto e agita-a de um lado para o outro, como se estivesse a acenar a alguém.
Num quarto de hospital, sentado na cama , o seu Pai olha emocionado para a televisão.
Assim que o jogo acaba, ele despacha-se o mais rápido possível e dirige-se para o hospital.
- És o meu campeão! - regozija o Pai.
- Estava difícil… - desabafa ele, soltando um sorriso.
- Mas não desistiram! Assim mesmo é que é! - exulta o Pai.
- Sim. - sorri orgulhoso - O Pai também não pode desistir!
- És tu que me dás força! Não pares de marcar golos!
-Farei tudo o que estiver ao meu alcance para não o desiludir!
A desilusão atinge-o no dia seguinte, quando é informado da morte do Pai, que não resistiu a um cancro.
Recebe o apoio imediato dos familiares, dos colegas de equipa e da equipa técnica.
Dá garantias ao Treinador que está em condições para ir a jogo na jornada seguinte e assim acontece.
Procura insistentemente pelo golo, que teima em não aparecer.
Ora chega atrasado a alguns cruzamentos, ora remata com pouca força, ora atira a bola ao lado, à trave ou ao poste.
Mas continua a tentar.
Numa jogada de ataque, bem construída pela sua equipa, desde o início, num cruzamento da direita corresponde de primeira com um pontapé de bicicleta vistoso e certeiro, que não dá hipóteses ao guarda-redes.
Ouve os gritos de festejo vindos da bancada.
Levanta-se e corre com os olhos em lágrimas.
Tira a camisola e aponta para o céu, a parte de trás com o seu nome e o número.

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