Condão Autor: Pedro Cardita

Estavam numa casa de concertos, lado a lado, focados nos ecrãs dos telemóveis, absortos nos seus mundos.
Não se conheciam.
De vez em quando olhavam para o palco, ainda sem a presença da banda, impacientes pelo início do concerto.
Voltavam aos telemóveis, navegando pelos seus facebooks.
Mas assim que ouviram os primeiros sinais vindos do palco a anunciar o início do concerto, guardaram os telemóveis nos bolsos.
Ele olha intrigado para ela, por também estar sozinha.
Ela olha ansiosa e entusiasmada para o palco.
O concerto começa e cantam em conjunto com o vocalista.
Vão cantando a plenos pulmões as letras das canções.
Entretanto ela dá-lhe um ligeiro encosto.
Ele sorri, mas permanece focado no concerto.
Entusiasmado, começa a mexer o corpo ao ritmo da música.
Mexe-se cada vez mais e também toca nela, sem querer.
Ela também não reage.
Lado a lado, sem se falarem, dançam e cantam como se não tivessem ninguém ao lado.
Ele olha para ela que está focada no concerto.
Fecha os olhos e dança ao ritmo da música.
Ela olha para ele e sorri ao vê-lo de olhos fechados a deixar-se levar pela música.
Dá-lhe outro encosto.
Ela vê-o a sorrir.
Ele continua a dançar e também lhe dá um encosto.
Ela riposta.
Ele também.
Olham um para o outro e sorriem.
Vão dançando e dando encostos.
Ele põe o braço direito sobre os ombros dela, que sorri.
Ela ergue o braço direito no ar, de forma efusiva, expressando a adrenalina que está a sentir.
Ele também ergue o seu braço esquerdo para cima.
Em sintonia, cantam, dançam, saltam, expressam-se.
No fim do concerto, finalmente, falam entretidos um com o outro.
Não têm vontade de seguirem para as suas casas e vão falando como se não houvesse amanhã, porque a música teve o condão de os unir.

FIM



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