Da Genialidade à Loucura Autor: Pedro Cardita
Isolou-se em casa para ninguém perturbar o seu processo de criação da personagem.
Era a oportunidade de mostrar que valia muito mais do que diziam e também de fazer algo que retirasse mesmo gozo.
A possibilidade de inverter as regras, de ser outro, fascinavam-no.
Embrenhou-se nos seus pensamentos e aos poucos foi encontrando um novo ego.
As noites eram mal dormidas, porque surgiam várias ideias e revia-as várias vezes, de modo a aperfeiçoá-las.
Em frente ao espelho do quarto, agia como se fosse outra pessoa, que rapidamente saltou do espelho, deixando de ser um reflexo e adquiriu forma humana.
No espelho passou a ver-se como era antes.
Num diário começou a fazer colagens de imagens que o inspiravam e a escrever frases soltas, textos, escritos pelo seu alter-ego.
Levava o diário consigo onde quer que fosse.
Quando se sentia fora da personagem, bastava ler o diário para fazer a substituição.
Completamente imerso na personagem, o impacto que causava nas filmagens era tão grande que os seus colegas de elenco, por vezes falhavam a contra-cena, fascinados com o que viam.
A espontaneidade, o improviso, a autenticidade dominavam a sua performance.
Nalguns dias de folga, andava vestido ou caracterizado como a personagem.
Não se deslumbrou com as reações positivas que o primeiro trailer recebeu, deixando-o debaixo d’olho dos media e do público.
Antes e depois das filmagens, várias vezes falava em frente ao espelho do seu quarto, divagando nos pensamentos do outro.
Até o filme estrear, conseguiu fintar o cansaço.
Após a estreia do filme, os melhores elogios foram para a sua prestação genuína, dedicada e categórica.
A voz que criou propositadamente para a personagem, substituiu em definitivo o seu tom de voz original.
Mesmo as expressões, os tiques da personagem também foram adoptados, embora ele dissesse que era impressão das pessoas.
Em frente ao espelho do seu quarto, passou a ter tensas e demoradas discussões consigo mesmo, como se estivesse a discutir com outra pessoa.
Deixou-se tomar pelo cansaço, pela negatividade, começou a duvidar de tudo e de todos, a querer fugir, sem saber para onde.
Até que um dia fugiu mesmo...
Foi encontrado morto em casa.
Ele superou-se profissionalmente, mas deixou-se abater pela loucura.
FIM

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